Alcoolismo pode causar insuficiência pancreática exocrina
A insuficiência pancreática exocrina, vulgarmente denominada pancreatite crónica, ocorre porque o pâncreas vai perdendo a sua capacidade de produzir as enzimas suficientes para a digestão dos alimentos. Também a produção de insulina fica compromrtida levando à diabetes.
«O alcoolismo está na origem da maior parte dos casos. Mas há outras causas, mais raras, como a obstrução do canal pancreático por lesões tumorais, as situações ideopáticas (causa indeterminada)», aponta o Dr. António Marques, gastrenterologista no Hospital de Santa Maria (Centro Hospitalar Lisboa Norte), referindo-se à etiologia da pancreatite crónica. «Há também a hipótese de alteração genética».
Todas estas afecções podem condicionar alterações no parênquima pancreático e nos ácinos que contêm os pró-enzimas digestivos, perturbando a sua produção e excreção para o duodeno», acrescenta o especialista.
Não há estudos que demonstrem a incidência. Sabe-se, no entanto, que em algumas zonas é relativamente prevalente, nomeadamente nalgumas zonas do Arquipélago dos Açores, ou no Alto Alentejo.
Curiosamente, há zonas com um índice de alcoolismo elevado mas com um reduzido número de casos de pancreatite crónica.
Quanto à sintomatologia, é variável, já que depende bastante da evolução do estado clínico de cada doente. Normalmente – e o alcoolismo determina que assim aconteça – os canais pancreáticos são entupidos, não deixando o pâncreas drenar convenientemente. Consequentemente, geram-se lesões inflamatórias a montante dessa obstrucção o que leva a atrofia e fibrose do tecido pancreático.
Desta forma, a maior parte dos sintomas estão ligados à obstrução: dilatações do canal pancreático, dor abdominal mais ou menos intensa, aparecimento de quistos nas zonas lesionadas. Segundo António Marques, «numa fase posterior, há insuficiência de activação e transporte dos próprios enzimas o que leva à malnutrição do próprio doente, com o emagrecimento posterior. Mais tardiamente aparecem outras insuficiências, como a diabetes».
Para um diagnóstico correcto de insuficiência pancreática exocrina pode ser necessária a realização de testes que, não só a demonstrem, como indiquem o grau da insuficiência. Determinado o mesmo, escolhe-se o tratamento mais indicado. Quase todos os casos necessitam de usar enzimas pancreáticas
«A pancreatina, que consiste na mistura de enzimas extraídas do pâncreas (amílase, lípase e tripsina), melhora o estado de degradação da glândula, já que poupa a sua actividade; ou seja, o pâncreas não é tão estimulado para a necessidade de produzir as enzimas que não consegue», menciona o gastrenterologista.
«Em algumas situações, a dor é tão desesperante, que é necessária ser feita uma terapêutica endoscópica para desobstruir os canais ou colocação de próteses de modo a abrir os canais pancreáticos e que a drenagem se volte a realizar». «Nalguns casos é necessária a intervenção cirúrgica.», acrescenta o nosso entrevistado.
E conclui: «É uma patologia que raramente leva a uma situação de malignidade, mas é muito traumática, devido às queixas dolorosas, ao emagrecimento e degradação do estado geral destes doentes.»
Dr. António Marques
Serviço de Gastrenterologia
CHLN – Hospital Santa Maria
